"São quase sinônimos os termos "matuto e caipira", pois referem-se a uma mesma realidade: o morador do interior, visto e nomeado pelo prisma do habitante da Capital, com uma boa dose de preconceito. O primeiro termo, caipira, é mais usado no Sul/Sudeste. Seu oposto é o caiçara, o morador nativo do litoral. A origem de ambos é do tupi: "caipira, caipora e curupira", e diz o dicionário etimológico, serem variantes do mesmo termo. "Caiçara", que queria dizer "cerca velha ou barco velho", hoje tem significados outros, entre os quais o pejorativo "praiano humilde e pobre".
"Matuto e caipira" são, portanto, utilizados no mesmo contexto, só que em diferentes regiões do Brasil. Nos festejos juninos, referem-se ao tipo de festejos próprios das regiões interioranas, às tradições de música, dança e culinária.
O presidente Lula, ao preparar sua festa palaciana, esqueceu suas raízes pernambucanas e resolveu nomeá-la de "festa caipira" em vez de "arraial matuto". Talvez, por isso, o articulista de São Paulo tirou conclusões equivocadas sobre a origem dos festejos juninos. Disse ele que tiveram origem no interior de São Paulo, com a mistura de etnias índia e branca (daí o "caipira mestiço") e espalharam-se por todo o Brasil.
Ora, a região do Brasil onde se iniciou a colonização portuguesa que nos legou as tradições juninas foi o Nordeste do Brasil. A região foi praticamente isenta de outras migrações que enfraquecessem a influência lusa. Além do mais, não precisa ser historiador para saber e perceber a predominância do Nordeste nos festejos juninos: ritmos, culinária, tudo parte daqui. E invade o Brasil. Nas demais regiões, nem feriado é o dia de São João: o santo foi cassado.
Mas como chegaram aqui essas tradições? Os colonos portugueses, em nossa região, vieram, na maioria, do Norte de Portugal, da região do Douro e do Minho, onde aqueles festejos permanecem até hoje bem vivos, como no Porto, em Braga e em Vila do Conde. Coincide, lá, com o solstício de verão, marcante no clima temperado, e com o início das colheitas. A comemoração desta data (solstício de verão, o dia mais longo do ano) e a forma de festejá-la foram herdada dos celtas, ancestrais do povo do norte da Península Ibérica. Esses se dedicavam à agricultura e festejavam a data com fogueiras para espantar os maus espíritos e as bruxas que podiam prejudicar a safra. A lenha usada devia ser verde para que o seu crepitar fosse ouvido à distância. Ainda hoje esse costume permanece na Galícia, região da Espanha que é um prolongamento natural do norte português. Talvez também as comemorações judaicas do Lag Ba'Omer sejam outra das influências no uso das fogueiras para festejar o início das colheitas, quando se cantava e dançava em volta das fogueiras. Tornada uma festa cristã e transplantada para a colônia, seus costumes tiveram que ser adaptados. Mas continuaram coincidindo com colheitas e fartura, com comidas consumidas entre festas, cantos e danças. Os africanos entraram com a culinária, as comidas de milho com coco. A mandioca foi herança índia. Surgiram a canjica, a pamonha, o pé-de-moleque. Acrescentaram-se as batidas da percussão às ingênuas músicas vindas do Reino. Foram surgindo as músicas diferentes, os ritmos nordestinos que hoje em dia têm o denominador comum de Forró. As danças, além de sofrerem a influência africana, tiveram uma participação especial e inesperada. A quadrilha francesa que as sinhazinhas dançavam na casa-grande, passou a ser dançada com os ritmos da senzala. Assim em avant tous, em arrière, balancez e tournez, popularizaram os nomes (alavantu etc) e passaram a ser dançados ao som de ritmos e instrumentos estranhos à corte francesa, onde teve seu berço.
Assim, é o Nordeste que dá o tom às festas juninas, transformando o País num grande "arraial matuto". Aqui foi o cadinho cultural, onde se formou a identidade brasileira, desde o tempo da colonização, fermentando os vários ingredientes para criar uma cultura marcante."
Aprendendo como funciona esse bicho.
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