quarta-feira, 20 de outubro de 2010

(trechos de "Os Sertões")

"O sertanejo é antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços do litoral. A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista revela o contrário.
É desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. (.) Basta o aparecimento de qualquer incidente transfigura-se. Reponta. Um
titã acobreado, e potente. De força e agilidade extraordinárias. (...) Sua cultura respeita antiquíssimas tradições. Torna-se um retirante, impulso pela seca cíclica, mas retorna sempre ao sertão. 
Sua religião, como ele, é mestiça. O catolicismo atrasado se mistura aos candomblés
do índio e do negro e se enche de superstições, crendices e temores medievais, conservados pelo isolamento, desde a colonização. Ele é crédulo, supersticioso e se deixa influenciar por padres, pastores e falsos profetas."


terça-feira, 12 de outubro de 2010

Catulo da paixão Cearense

http://www.rolandoboldrin.com.br/poemas_chico-beleza.asp


Chico Beleza - Catulo da Paixão Cearense


Entonce logo os apóstro,
àssombarando o istruvío,
cada um seu pé de verso
cantava no disafío.

A Mãe de Cristo chorava
e as água que derramava
da fonte do coração,
caía nas cora santa
da viola de São João !

Pru via disso é que o pinho,
instrumento sem rivá,
quando se põe-se chorando,
se põe-se a gente a chorá”.

Foi aí, nesse festêro,
que eu vi o Chico Sambêro,
um sambadô sem sigundo,
mas porêm feio, tão feio,
que toda a gente dizia
que foi o hôme mais feio
que Deus butou nêste mundo !

Tinha a cara de priguiça,
cabeça de mono veio,
e pescoço de aribú !
A bôca quando se ria,
taquarmente paricía
a boca de um canguru !
Tinha as orêia de pôrco
e os dente de caitetú !
Tinha barriga de sapo,
e o nariz impipocado,
figurava um ginipapo !
Os braço era taliquá
dois braço sirigaitado
dum véio tamanduá !
Os óio–dois birimbau !
As perna fina alembrava
as perna dum pica-páu !
O quêxo de capivara
tinha um bigode purriba,
que quáge tapava a cara !
Os cabelo surupinho
era, sem tirá nem pô,
cabelo de pôrco-ispinho !
Im concruzão, pra findá,
tinha os dedo de gambá,
os ombro redondoe chato
e os pé que nem pé de pato!

Inda mais: pra cumpretá
aquela xeringamança
e feiúra de pagóde,
o hôme, quando se ria,
era um cavalo rinchando,
e quando táva suando,
tinha um ôroma de bóde.

Apois bem. Êsse raboêza,
que era prú todas as bôca
chamado : Chico Beleza ;
êsse horríve lubizôme,
que era mais feio que a fome,
mais feio que o Dêmo inté,
quando as perna sacudía,
sambando nargum banzé,
infeitiçando as viola,
apaxonando as muié,
trazia tôda as cabôca,
cumo um capaxo, dibaxo
das duas sóla dos pé !!!

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Serjão

Sérgio Reis

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Link do site oficial de Sergio Reis
http://sergioreis.uol.com.br/

Sérgio Basini, mais conhecido como Sérgio Reis (São Paulo, 23 de junho de 1940[1]), é um cantor sertanejo brasileiro, famoso pelo seu repertório diversificado.
Anteriormente vinculado à Jovem Guarda — época de sucessos como "Coração de papel", de sua própria autoria.
Como ator, trabalhou em algumas telenovelas, como Pantanal e A História de Ana Raio e Zé Trovão, na extinta TV Manchete, e Paraíso" e "O Rei do Gado, na Rede Globo. Seu último trabalho como ator foi na telenovela Bicho do Mato, na Rede Record.
Na telenovela "O Rei do Gado", o personagem de Sérgio fazia uma dupla sertaneja com o personagem de Almir Sater, e a dupla era denominada na telenovela "Pirilampo & Saracura", tendo gravado, inclusive, músicas para a trilha sonora.
No ano de 2002, Sérgio Reis prestou uma homenagem a Roberto Carlos, com o CD intitulado "nossas canções", onde "Serjão" interpretou músicas interpretadas pelo Rei Roberto Carlos, de autoria deste em parceria com Erasmo Carlos e de outros compositores.
No ano de 2003, Sérgio Reis gravou seu primeiro DVD, intitulado "Sérgio Reis e filhos - violas e violeiros", e como o próprio título diz, "Serjão" teve seus filhos como músicos na apresentação.
Discografia
  • Coração de papel - 1967
  • Anjo triste - 1969
  • Sérgio Reis - 1973
  • João de Barro - 1974
  • Saudade de minha terra - 1975
  • Retrato do meu sertão - 1976
  • Sérgio Reis - Disco de ouro - 1977
  • O menino da porteira - 1977
  • Relaciones Internacionales - 1977
  • Mágoa de boiadeiro - 1978
  • Natureza - 1978
  • Sérgio Reis - 1979
  • Sérgio Reis - 1980
  • Sérgio Reis - Disco de ouro - 1980
  • Boiadeiro errante - 1981
  • O melhor de Sérgio Reis - 1982
  • Os grandes sucessos de Sérgio Reis - 1982
  • A sanfona do menino - 1982
  • Sérgio Reis - Disco de ouro - 1983
  • Sérgio Reis - 1983
  • Sérgio Reis - 1984
  • Sérgio Reis - 1985
  • O melhor de Sérgio Reis - Vol. 2 - 1985
  • Sérgio Reis - 1987
  • Sérgio Reis - 1988
  • Sérgio Reis - 1989
  • Pantaneiro - 1990
  • Sérgio Reis - 1991
  • Sérgio Reis - 1993
  • Sérgio Reis - Acervo Especial - 1993
  • Ventos Uivantes - 1994
  • Grandes sucessos de Sérgio Reis - 1995
  • Os originais - Sérgio Reis - 1995
  • Marcando estrada - 1996
  • O rei do gado - 1996
  • Vida violeira - 1997
  • Boiadeiro - 1997
  • Sérgio Reis - coleção JT - 1998
  • Sérgio Reis do tamanho do Brasil - 1998
  • Essencial - 1998
  • Sérgio Reis - popularidade - 1999
  • O essencial de Sérgio Reis - 1999
  • O melhor de Sérgio Reis - 1999
  • Série Bis - Jovem Guarda - 2000
  • Sérgio Reis - dose dupla - 2000
  • 40 anos de estrada - 2000
  • Sérgio Reis & convidados - 2000
  • Sérgio Reis - 2000
  • Sérgio Reis - 100 anos de música - 2001
  • Sérgio Reis - nossas canções - 2002
  • O Divino espírito do sertão - 2003
  • Sérgio Reis e filhos - violas e violeiros - 2003
  • Tributo a Goiá - 2007
  • Coração Estradeiro - 2008

[editar] Trabalhos na televisão

[editar] Ligações externas

Referências

  1. Sérgio Reis canta e encanta amanhã em homenagem a nossa Morada!!!. Jornal Imparcial. Página visitada em 19 de agosto de 2009.
  2. Sérgio Reis canta e encanta amanhã em homenagem a nossa Morada!!!. Jornal Imparcial. Página visitada em 19 de agosto de 2009.

Violeiro, cantor e musico de grande valor e raizes.

Esse link do site Terra, tem todos os discos de vinil e os cds que ele gravou em sua carreira.
http://letras.terra.com.br/almir-sater/cds.php

Almir Eduardo Melke Sater (Campo Grande, 14 de novembro de 1956) é um violeiro, compositor, cantor e ator brasileiro.

Biografia
Nascido em Mato Grosso do Sul, desde os doze anos já tocava viola. Aos vinte anos mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar Direito, mas desistiu da carreira de advogado, tornando-se um músico, motivado inicialmente por escutar no Largo do Machado uma dupla tocando viola caipira . Então dedicou-se ao seu estudo, tendo Tião Carreiro como mestre. Retornou à Campo Grande onde formou a dupla Lupe e Lampião com um amigo, adotando Lupe como nome artístico. Em 1979 foi para São Paulo, onde iniciou um trabalho com sua conterrânea Tetê Espíndola, acompanhando também a cantora Diana Pequeno.[1] Gravou seu primeiro disco em 1980, contando com a participação de Tetê Espíndola, Alzira Espíndola e Paulo Simões. Fez parte da geração Prata da Casa, no início dos anos 80, sendo uma das principais atrações do movimento que juntou os maiores expoentes da música sul-mato-grossense.

[editar] Comitiva Esperança

Juntamente com o parceiro Paulo Simões, com o maestro e violinista Zé Gomes, o jornalista, crítico e pesquisador Zuza Homem de Mello e do fotógrafo Raimundo Alves Filho, inicou uma comitiva que explorou o Pantanal, realizando registros fotográficos, pesquisando o modo de vida dos pantaneiros enquanto percorriam o Paiaguás, Nhecolândia, Piquiri, São Lourenço e Abobral. Esse projeto resultou em um documentário co-produzido por Almir Sater e Paulo Simões.[2]

[editar] Carreira na televisão

Estreou como ator na telenovela Pantanal, de Benedito Ruy Barbosa, pela Rede Manchete em 1990. Na trama, Almir deu muito o que falar por sua interpretação como Trindade, um peão misterioso que afirmava ter um pacto com o demônio. Em 1991 protagonizou, ao lado de Ingra Liberato a novela A História de Ana Raio e Zé Trovão, de Marcos Caruso, pela mesma emissora.
Paralelamente, Almir estabeleceu duas ricas parcerias com Renato Teixeira e Sérgio Reis criando verdadeiras pérolas do cancioneiro regional-popular.
Exímio violeiro, seu estilo caracteriza-se pelo experimentalismo, a utilização de diversas afinações diferentes e o resgate da música regional. Suas influências vão de Al Jarreau e Beatles às músicas mineira, andina e caipira/sertaneja tradicionais. Também toca violão e charango. Os personagens vividos pelo ator possuíam essas características, como pode ser visto em O rei do gado, de Benedito Ruy Barbosa, pela Rede Globo, em 1996, onde seu personagem fazia dupla com o personagem de Sérgio Reis, "Pirilampo & Saracura", tendo gravado, inclusive, músicas na trilha sonora da novela.
Sua última aparição como ator foi na telenovela Bicho do Mato, de Bosco Brasil e Cristianne Fridman, pela Rede Record, em que interpretava a personagem Mariano. Foi um remake da telenovela homônima, de Chico de Assis e Renato Corrêa e Castro exibida pela Rede Globo em 1972.[3]
.[4]

[editar] Telenovelas - trabalhos como ator

= Cinema - - Almir Sater participou antes das novelas de dois trabalhos no cinema como ator.
  • As Bellas de Billings,[1987].de Ozualdo Candeias como protagonista.
  • Caramujo flor [1988] participação no curta metragem de Joel Pizzini.
Curiosidades sobre a carreira de Almir Sater:
  • Almir Sater foi vencedor de dois(2) Prêmios Sharp em meados de 1990 com as canções Instrumental Moura e Tocando em Frente, defendida na voz de Maria Bethânia.
  • O artista foi o único brasileiro a cantar em Nashville- USA(1988),considerado o berço da música country americana.
  • A sua música é descrita como folk brasileiro,agrega uma sonoridade tipicamente caipira da viola de 10 cordas,o folk norte-americano e com influências das culturas fronteiriças do seu estado,como a música paraguaia e andina e o resultado é único,ao mesmo tempo reflete traços populares e eruditos,despertando a atenção de públicos diversos.
  • O seu mais recente Álbum, o CD 7 Sinais, traz um repertório eclético e inovador,conta com participações especiais dos sanfoneiros Dominguinhos e Luiz Carlos Borges;
  • Recentemente,o artista,foi um dos convidados para o especial e gravação do DVD "Emoções Sertanejas",em homenagem aos 50 anos de carreira de Roberto Carlos.
Logo após,a exibição do especial pelo Globo,em Abril,o nome de Almir Sater liderava os trending topics Brasil, ou seja, a lista dos dez termos mais citados no Twitter, a rede social do momento na internet.
Sua interpretação na canção,"O Quintal do Vizinho", contida e suave, recebeu diversos elogios, sendo apontada por vários internautas como a mais bonita apresentação e um dos vídeos mais acessados no Youtube desde então.

[editar] Discografia

[editar] Álbuns

[editar] Especiais

[editar] Participações

Referências

  1. Almir Sater (em português). Click Music. Página visitada em 10 de setembro de 2009.
  2. Comitiva Esperança (em português). Brasil Festeiro. Página visitada em 10 de setembro de 2009.
  3. Almir Sater: Não sou sertanejo, eu sou roqueiro (em português). overmundo (27 de agosto de 2007). Página visitada em 8 de setembro de 2009.
  4. Almir Sater (em português). Enciclopédia da Música Brasileira. Página visitada em 9 de setembro de 2009

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

verdadeiro poeta

http://cemir1969.spaces.live.com/Blog/cns!6A4DCD78EBBCFFCF!730.entry?sa=810796754

Obra de Patativa do Assaré é reconhecida dentro e fora do país
CARLOS JULIANO BARROS

"Sou poeta das brenha, não faço o papé
De argum menestré, ou errante cantô
Que veve vagando, com sua viola,
Cantando, pachola, à percura de amor."
("Poeta da Roça")

Faz pouco mais de um ano que Antônio Gonçalves da Silva morreu. Para quem nunca ouviu falar, ele era conhecido como Patativa do Assaré. Se o apelido ainda não é familiar, trata-se de um dos maiores poetas "populares" – senão o maior – que o Brasil já conheceu. Falecido no dia 8 de julho de 2002, aos 93 anos, embora estivesse cego, encontrava-se em pleno vigor artístico.
Ele não foi eleito o cearense do século – título que ficou com o Padre Cícero – nem é tão aclamado quanto outro poeta nordestino, o pernambucano João Cabral de Melo Neto. Mas hoje a qualidade da obra desse matuto nascido na Serra de Santana, zona rural do município de Assaré (cerca de 600 quilômetros ao sul de Fortaleza), é internacionalmente reconhecida. Patativa já foi estudado em universidades da França e da Inglaterra. No Brasil, seus poemas constam da matéria cobrada no Exame Nacional de Cursos, o Provão, na área de letras, e também fazem parte do Programa Nacional Biblioteca da Escola, do Ministério da Educação, que distribui milhares de livros do autor para escolas de ensino fundamental de norte a sul do país.
O apelido, ele ganhou depois de uma viagem, nos anos 1930, a Belém do Pará. Um jornalista da cidade, José Carvalho de Brito, comparava a espontaneidade dos versos de Antônio à pureza do canto de uma ave típica do nordeste, a patativa. Contudo, naquela época, diversos cantadores usavam esse nome artístico. Então, surgiu a idéia de fazer referência à cidade de Antônio. E assim ficou: Patativa do Assaré.
Violeiro, repentista, cordelista, poeta. Ele seguiu a trilha dos artistas populares do nordeste e desde jovem já mostrava talento, animando festas com versinhos de improviso. Porém, o que dizer de alguém que só freqüentou a escola por seis meses e, mesmo assim, era capaz de compor poemas com a complicada metrificação usada pelo português Luís de Camões, em Os Lusíadas?
"Ele é um poeta popular que transitou, como autodidata, pela esfera da poesia culta. Mas a identificação dele é com a poesia matuta", explica Cláudio Henrique Andrade, que defendeu seu mestrado na Universidade de São Paulo (USP) sobre a obra de Patativa.
"Enquanto Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto e outros escritores eruditos convertem a matéria-prima da tradição oral em alta literatura, Patativa faz o inverso: serve-se da literatura erudita para enunciar uma linguagem de comunicação direta", afirma o poeta e crítico literário Mário Chamie.
Para se ter uma idéia dessa capacidade de aprendizado por conta própria, Patativa leu o complexo Tratado de Versificação, dos parnasianos Olavo Bilac e Guimarães Passos. "Ele dava muita importância à metrificação. E fazia tudo de cabeça", diz Andrade.
É impressionante perceber como um agricultor pobre, sem formação escolar, produzia versos com extrema desenvoltura, tanto na língua culta quanto naquela utilizada no dia-a-dia pelo caboclo. "Quando ele escrevia o que chamava de poesia matuta, não fazia isso por ignorância, mas por opção, para chegar mais perto de seu público-alvo", afirma o professor da Universidade Federal do Ceará Gilmar de Carvalho.
Existe outra característica fundamental em sua produção. "A poesia dele é para ser ouvida, e não lida", diz Andrade. Mais do que isso, "era uma performance. Quem teve o privilégio de ver e ouvir, sabe que ela ganhava uma outra dimensão quando era enunciada por ele", garante Carvalho.
Apesar de ter ganhado muita repercussão nos últimos anos, a obra de Patativa ainda enfrenta resistência por parte da elite intelectual mais conservadora, que a encara como folclore, coisa menor. Mesmo agraciado com o título de doutor honoris causa de três universidades públicas do Ceará, muitos estudiosos ainda torcem o nariz para a poesia desse matuto cearense, que se reconhecia como tal sem nenhum problema.
Fonte patativana

"Meu verso rastêro, singelo e sem graça
Não entra na praça, no rico salão
Meu verso só entra no campo e na roça
Nas pobre paioça, da serra ao sertão."
("Poeta da Roça")


O escritório do poeta era a própria roça. Ele costumava trabalhar sozinho, compondo versos de cabeça, "batendo os dentes", como conta Inês de Alencar, uma de suas filhas. Por mais longo que fosse o poema, Patativa só o transcrevia para o papel depois que estivesse totalmente lapidado na mente. A memória dele é uma lenda. A família, assim como Cláudio Andrade e Gilmar de Carvalho, garante que ele sabia de cor a maioria de seus poemas.
Carvalho conta que viveu um dos momentos mais emocionantes ao lado de Patativa justamente na Serra de Santana. "Ele tinha uns 88 anos e me disse: ‘Gilmar, vou recitar para você meu poema mais longo, "O Vim-Vim" ’. Fiquei muito impressionado", lembra. Para se ter noção, "O Vim-Vim" tem quase 60 estrofes, com dez versos cada. "Ele dizia que a memória antiga dele era petrificada", completa.
Inês também se recorda das vontades do pai, chamado respeitosamente pela família de "sinhozinho", reflexo do típico machismo do matuto. "Às vezes, ele me pedia para ler alguns poemas dele. Então, eu perguntava: ‘O senhor esqueceu?’ Ele respondia: ‘Não, é que gosto que você leia para mim’ ".
Patativa se mudou da Serra para Assaré quando tinha 70 anos. "Minha mãe era muito religiosa e queria ficar perto da igreja", explica Inês. Para seu marido e primo, Raimundo Alencar, o Mundinho, também existe outro motivo: um atropelamento, em 1973, que prejudicou os movimentos da perna direita do poeta. "Aí ele não podia mais trabalhar na roça", argumenta. A casa onde ele morou com a esposa, Belinha, em Assaré, fica na praça central da cidade, a poucos metros da igreja.
Mundinho conta que sua mulher – Inês – era muito querida pelo pai. Patativa, quando fazia novos versos, costumava recitar em primeira mão para a filha, sempre a postos para satisfazer os desejos do velho artista. O casal lembra que apenas uma vez não aprovou o poema: "Foi um em que ele elogiava o prefeito [Antônio de Oliveira]. Político nenhum merece elogio", contesta Mundinho.
Mesmo morando na cidade, Patativa não se desligou da sua Serra de Santana. Toda semana, pagava um carro para ir ver a família que havia deixado no seu "paraíso", como costumava brincar. Lá ainda vive o primeiro filho do poeta, Geraldo Gonçalves da Silva, a "cópia fiel" do pai, como se fala em Assaré. Durante anos, além de se dedicar à lavoura, Geraldo também vendeu livros e discos autografados pelo poeta, nas cidades da região. Nesses tempos, a vista de Patativa já se encontrava bastante comprometida. "Ele escrevia seu nome, e eu cortava o ‘t’ e botava o pingo no ‘i’ ", conta Geraldo. Quando perguntado se já tentou seguir a carreira artística do pai, ele responde: "Poesia, a gente nasce sabendo".
Outro bom motivo para ir até a Serra eram os encontros que Patativa mantinha com seu sobrinho Geraldo Gonçalves de Alencar, o Geraldo Poeta. "A gente passava a tarde fazendo poesia, como se fossem palavras cruzadas", recorda. Dessas reuniões surgiu até um livro, chamado Ao Pé da Mesa. O curioso era a forma como esses desafios poéticos eram conduzidos. Separados apenas por uma pequena mesa, Geraldo Poeta sentava-se com o papel e a caneta de um lado; Patativa e sua impressionante memória, do outro. E ficavam trocando motes, respondendo em versos.
De acordo com Geraldo Poeta, a Serra de Santana já chegou a ter mais de 30 poetas. Todos influenciados pelo mestre Patativa, que, no poema "Fonte Patativana", reconheceu sua importância, sem falsa modéstia: "Aos poetas do Nordeste/ Ofereço meus louvores/ Aos que são meus seguidores/ E já passaram no teste". De acordo com Geraldo Poeta, o tio era muito rigoroso e, "se um verso estava malfeito, falava na hora". Mas, se alguém criticava sua poesia, "aí ele teimava e discutia".
Quem o conheceu admite que Patativa era temperamental. Não chegava a ser rude, como muitos o acusavam. Porém, sempre soltava um malcriado "quem é?" a quem se aproximava sem avisar, como numa espécie de defesa, devido à cegueira. O olho direito, ele havia perdido ainda criança, por causa de um sarampo. A outra vista foi escurecendo com o tempo. Também era recatado, "mas capaz de passar o dia inteiro falando de poesia. Sobre outro assunto, nem abria a boca", diz Geraldo Poeta.
O humor de Patativa piorava quando ele ficava sem fumar. "Ele dizia que o cigarro trazia a inspiração", conta Inês. O álcool foi outro vício. Porém, esse era um assunto tabu, em que ele nem gostava de tocar. Na verdade, beber é um hábito mais do que comum entre os caboclos. E, nas rodas de amigos, "o pessoal gostava de dar bebida a ele. Aí a poesia fluía mais", brinca Inês.
Indignação social

"Quem véve no luxo, somente gozando,
Dinhêro gastando sem mágoa e sem dô,
Não sabe, nem pensa e tombém não conhece
O quanto padece quem mora a favô."
("O Agregado")
Impossível dissociar a obra de Patativa de seu cotidiano de agricultor pobre, apesar de dono da própria roça. "Para ele, não há utopia. Ele fala da realidade como ela é, e que cabe aos homens lutar para que a situação não continue como está", explica Chamie. Os protagonistas de sua literatura eram os caboclos sem terra, os mendigos, os operários pobres da cidade. Seus poemas não possuem quase nada de experiência própria, mas transpiram a consciência social sobre a miséria que o cercava.
"A denúncia que ele faz não é panfletária nem episódica. Diz respeito a situações que vêm se arrastando ao longo do tempo, sem solução, como a questão da reforma agrária", afirma Carvalho. Porém, o rótulo de "poeta social" veste apenas uma parte da obra de Patativa. "Querer ver só o ‘social’ é empobrecer o olhar sobre a produção dele. Ela se sustenta como matéria poética em si, porque tem musicalidade, rimas ricas, métrica", completa.
Dessa forma, fica difícil defini-lo. Considerado um ícone da poesia popular, sua contribuição para esse tipo de literatura é revolucionária. "Ele foi o primeiro, talvez o único, que fez uso da língua matuta para fins sérios. Para outros poetas populares, ela era um instrumento de ridicularização do caboclo", explica Andrade.
Para Carvalho, a poesia popular é tradicionalmente conservadora. Poucos são os que conseguem se libertar da influência do poder local, dos coronéis. Porém, Patativa seguia na contramão, ao denunciar as injustiças sociais. Por isso, sua obra tem um caráter moralizante muito forte, "mas não daquele moralismo pequeno, que condena a minissaia das moças e o cabelo comprido dos homens. Ele não ia perder tempo com isso", afirma.
Outra característica de seus trabalhos é a freqüente polarização entre o matuto do sertão e o "dotô" da cidade. "O matuto fala errado para desafiar o conhecimento do doutor e impor sua verdade. É uma estratégia de valorização do sujeito popular", diz Andrade.
As poesias de Patativa são essencialmente narrativas, e ele se orgulhava de criar os enredos. Porém, na literatura de cordel, é muito comum ver autores que só adaptam em versos alguma trama já feita por outro. Patativa chamava de versejadores aqueles que reproduziam histórias existentes. Mas ele próprio escreveu poucos cordéis. Mesmo quando se dedicou a esse tipo de texto, também o fez de maneira original. "Essa modalidade de arte é calcada na luta entre o bem e o mal", explica Andrade. Para o pesquisador, o poeta tinha um faro da realidade mais apurado do que outros cordelistas, que quase sempre enaltecem o triunfo do herói. Patativa tinha um ar mais desencantado, mais pé no chão.
Militância política

"Vão no mesmo itinerário
Sofrendo a mesma opressão
Na cidade, o operário
E o camponês no sertão."
("O Agregado e o Operário")
"Apesar de distante, na sua Assaré, o poeta sempre esteve antenado com a política brasileira." Carvalho resume bem o espírito engajado de Patativa. Sua obra, como não poderia deixar de ser, foi muito utilizada por partidos políticos. O engraçado é que essa apropriação se deu tanto por grupos de esquerda quanto de direita. Certamente, ao se identificar com os movimentos de luta pela terra, ele se afastava dos mais conservadores. Mas, nos anos 1940, escreveu um poema denominado "Glosas contra o Comunismo", influenciado por um padre da região.
Os versos foram utilizados por adversários de Tasso Jereissati, durante a campanha eleitoral de 1986 – que o levou ao governo do Ceará. Coronéis daquele estado plantaram o boato, para amedrontar a população, de que Patativa bradava aos quatro ventos que Jereissati era comunista. Claro que essa não era – nem é – a opção política do ex-governador. Mas, na época, ele representava "um contraponto às oligarquias", diz Carvalho.
Então, Patativa resolveu por livre e espontânea vontade apoiar Jereissati, fazendo versos em defesa de sua candidatura. A partir daí, iniciou-se uma relação muito próxima entre os dois. Ter o poeta com seu apelo popular como aliado político é, no mínimo, uma boa estratégia para garantir votos.
Na capital de seu estado, Patativa também subiu ao palanque pela anistia dos presos políticos, na época da ditadura, e defendeu o movimento das diretas-já. Andrade conta que, anos mais tarde, durante a campanha presidencial de 1989, o poeta chegou a gravar propaganda em favor do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva, que não foi ao ar. "Era uma pessoa avançada, de esquerda. Porém, talvez mais apegado a um cristianismo primitivo do que a idéias marxistas", afirma Carvalho.
Patativa querido

"De noite tu vives na tua palhoça
De dia, na roça, de enxada na mão
Caboclo roceiro, sem lar, sem abrigo
Tu és meu amigo, tu és meu irmão."
("Caboclo Roceiro")
Natividade de Paiva é, como ela própria diz, "louca pelo nosso poeta". Não faz nem um ano que trabalha na Universidade Popular Patativa do Assaré (Uppa), que funciona numa casa pertencente à sua família, herança de seu pai. Patativa também foi padrinho de Natividade, quando ela se formou em economia.
Até aí, nada de estranho. Mais um caso de admiração incondicional pelo cidadão mais ilustre de Assaré. Porém, a história muda de figura se for levado em conta que, na década de 1940, o pai dela mandou prender Patativa por escrever o poema "Prefeitura sem Prefeito", um "desacato à autoridade".
Natividade e a Uppa são alguns exemplos da forte presença de Patativa na cidade. As referências estão em todo lugar. A obra dele é ensinada nas escolas, o futuro terminal rodoviário trará uma menção a seu nome, assim como já faz uma rádio local. "Não é questão de adoração, mas de reconhecimento pela contribuição dele ao crescimento de nosso município", afirma o secretário de Cultura e do Desporto de Assaré, Eugênio de Oliveira.
E o papel que Patativa desempenhou no desenvolvimento da cidade é inegável, principalmente "por suas amizades com o ex-governador Tasso Jereissati e com o ex-senador Sérgio Machado", diz Oliveira. Mas o poeta nunca se beneficiou dessas ligações com os poderosos. Não é difícil encontrar alguém na cidade que diga: "Patativa poderia ter ficado muito rico". Mas ele só usou sua influência para buscar melhorias para sua terra. Prova disso é que a água encanada, assim como a eletrificação da zona rural, somente foram alcançadas depois que ele recorreu a Jereissati. "Óbvio que essas obras fazem parte dos planos de qualquer governador, mas o pedido pessoal acelerou as coisas", declara Carvalho.
A idéia de criar a Uppa surgiu há dois anos. "Queríamos pôr em prática os pensamentos de Patativa", diz Palácio Leite, presidente da fundação responsável pela "universidade não-acadêmica", como ele a define. As atividades visam gerar trabalho e renda para jovens da cidade, por intermédio de cursos de horticultura, oficinas de carpintaria e a publicação de um jornal, patrocinado por comerciantes da região. O presidente da Uppa lembra a última vez que Patativa recitou poesias em público: "Foi na inauguração da universidade, em maio do ano passado".
Dentre todas as iniciativas de preservação da obra do autor, destaca-se o Memorial Patativa do Assaré. Inaugurado no aniversário de 90 anos do poeta, o acervo conta com objetos pessoais, fotos e trechos de sua obra. "A pedido dele, a família ficou responsável pela manutenção do espaço", diz Fátima Alencar, neta do poeta. Foi lá que o corpo de Patativa foi velado, depois de deixar a igreja. O padre Ivo, que cuida da paróquia da cidade, diz nunca ter visto a praça central tão cheia como no dia da morte do autor. "Ele era uma pessoa muito religiosa, todo dia rezava o terço pelo rádio. Também compôs alguns hinos para a igreja", rememora.
Foi o padre quem celebrou a missa do primeiro aniversário da morte de Patativa, com a igreja lotada. Alguns poetas, violeiros e amigos, que beberam da fonte patativana, como Cícero Batista, Mané do Cego e Miceno Pereira, também o homenagearam, cantando versos em reverência ao mestre que tanto os influenciou.
ConsagraçãoMuitos poemas de Patativa fizeram sucesso na voz de outras pessoas. É o caso de Triste Partida, música gravada por Luís Gonzaga. O rei do baião chegou até a propor a compra da letra, mas Patativa foi irredutível. "Ele ligava muito para a questão da autoria", revela Andrade. Esse valor dado ao registro também constitui outro importante diferencial em relação à poesia popular tradicional, que é anônima, de domínio público.
Geraldo Poeta lembra que o tio ficava muito bravo se alguém mudasse alguma coisa em seus versos. Para Chamie, Patativa é o porta-voz de experiências coletivas, "que representam a todos, mas são enunciadas por um. Na verdade, ele fala: ‘Não mexa naquilo que o povo disse’ ".
O poeta de Assaré tinha uma boa amizade com o compositor pernambucano Luís Gonzaga. Já sua relação com o cearense Raimundo Fagner... Em 1973, o cantor gravou uma música chamada Sina, que, na verdade, não passava de uma versão reduzida do poema "O Vaquêro", publicado no primeiro livro de Patativa, Inspiração Nordestina, de 1956. "Não dá para ele dizer que não sabia, pois estava numa obra antiga, que teve duas edições", argumenta Carvalho. O mal-estar foi aparentemente superado, e Fagner gravou outra música de Patativa, Vaca Estrela e Boi Fubá, já no começo dos anos 80. Os dois também viajaram o Brasil fazendo apresentações. Porém, "por mais de 20 anos, Patativa não recebeu os créditos pela composição de Sina", afirma Carvalho.
Essa apropriação indevida, feita por muitos, assim como por Fagner, "era inevitável pela qualidade da obra e por Patativa viver longe dos grandes centros", explica Carvalho. Certa vez, o professor viu o poeta receber pelo correio um boleto correspondente a direitos autorais, "dinheiro que não valia nem o esforço de ir ao banco retirar", diz, indignado.
A obra-prima de Patativa do Assaré, Cante lá que Eu Canto cá, de 1974, foi o único livro lançado por uma grande editora. E, a partir de então, começou a tomar corpo o sucesso do matuto capaz de fazer improvisações e escrever sonetos. Ele também gravou alguns discos, recitando suas composições, e participou da novela global "Renascer", já na década de 90. "Ele possui uma força de comunicação irresistível. Não é à toa que sua obra passa a ser multimídia, presente na música popular, em livro, na televisão", conclui Chamie.
PreconceitoJosé Moisés da Silva tem 82 anos. Há muito tempo ele vende cordéis pelas cidades do sul do Ceará. Em Assaré, toda segunda é dia de feira. "Em Juazeiro do Norte, os poemas de Patativa são muito procurados", conta. Mas o velho vendedor sabe que já foi o tempo desse tipo de literatura. "Os idosos é que compram mais. A televisão acabou com a poesia", diz.
Os versos matutos de Patativa do Assaré, porém, parecem mais atuais do que nunca, ao denunciar os conflitos agrários, a indiferença dos governantes, entre outros problemas. Se o cordel já cumpriu sua função histórica – "era o jornal de antigamente", afirma Geraldo Poeta –, a poesia popular, que narra o cotidiano dos mais humildes com a linguagem própria deles, ainda tem muito a realizar. Principalmente dar voz às pessoas simples e humildes que sempre foram tachadas de incultas e despreparadas.
Romper com esse preconceito elitista, que só enxerga como boa poesia aquela que honra a língua portuguesa correta, parece ser o maior desafio que Patativa enfrentará, mesmo morto. Maior até do que as próprias secas que vivenciou. "Para ganhar estatuto de poesia, o texto precisa ter qualidade", declara Andrade. O que incomoda mais é a pobreza: não a dos versos, mas a do autor deles.
Dezoito quilômetros separam a cidade de Assaré – com cerca de 20 mil habitantes – da Serra de Santana. Foi lá que, em 5 de março de 1909, nasceu Antônio Gonçalves da Silva, segundo filho de um agricultor pobre. Ainda hoje, é onde moram muitos de seus parentes. Todos, assim como fazia Patativa, dedicam-se ao cultivo de milho, arroz e feijão. Na Serra ainda se encontra de pé, a duras penas, a casa em que ele nasceu. "Tinha de reformar para preservar", diz Joana da Silva, que nela vive com os filhos e o marido, sobrinho de Patativa.
"São quase sinônimos os termos "matuto e caipira", pois referem-se a uma mesma realidade: o morador do interior, visto e nomeado pelo prisma do habitante da Capital, com uma boa dose de preconceito. O primeiro termo, caipira, é mais usado no Sul/Sudeste. Seu oposto é o caiçara, o morador nativo do litoral. A origem de ambos é do tupi: "caipira, caipora e curupira", e diz o dicionário etimológico, serem variantes do mesmo termo. "Caiçara", que queria dizer "cerca velha ou barco velho", hoje tem significados outros, entre os quais o pejorativo "praiano humilde e pobre".
"Matuto e caipira" são, portanto, utilizados no mesmo contexto, só que em diferentes regiões do Brasil. Nos festejos juninos, referem-se ao tipo de festejos próprios das regiões interioranas, às tradições de música, dança e culinária.
O presidente Lula, ao preparar sua festa palaciana, esqueceu suas raízes pernambucanas e resolveu nomeá-la de "festa caipira" em vez de "arraial matuto". Talvez, por isso, o articulista de São Paulo tirou conclusões equivocadas sobre a origem dos festejos juninos. Disse ele que tiveram origem no interior de São Paulo, com a mistura de etnias índia e branca (daí o "caipira mestiço") e espalharam-se por todo o Brasil.
Ora, a região do Brasil onde se iniciou a colonização portuguesa que nos legou as tradições juninas foi o Nordeste do Brasil. A região foi praticamente isenta de outras migrações que enfraquecessem a influência lusa. Além do mais, não precisa ser historiador para saber e perceber a predominância do Nordeste nos festejos juninos: ritmos, culinária, tudo parte daqui. E invade o Brasil. Nas demais regiões, nem feriado é o dia de São João: o santo foi cassado.
Mas como chegaram aqui essas tradições? Os colonos portugueses, em nossa região, vieram, na maioria, do Norte de Portugal, da região do Douro e do Minho, onde aqueles festejos permanecem até hoje bem vivos, como no Porto, em Braga e em Vila do Conde. Coincide, lá, com o solstício de verão, marcante no clima temperado, e com o início das colheitas. A comemoração desta data (solstício de verão, o dia mais longo do ano) e a forma de festejá-la foram herdada dos celtas, ancestrais do povo do norte da Península Ibérica. Esses se dedicavam à agricultura e festejavam a data com fogueiras para espantar os maus espíritos e as bruxas que podiam prejudicar a safra. A lenha usada devia ser verde para que o seu crepitar fosse ouvido à distância. Ainda hoje esse costume permanece na Galícia, região da Espanha que é um prolongamento natural do norte português. Talvez também as comemorações judaicas do Lag Ba'Omer sejam outra das influências no uso das fogueiras para festejar o início das colheitas, quando se cantava e dançava em volta das fogueiras. Tornada uma festa cristã e transplantada para a colônia, seus costumes tiveram que ser adaptados. Mas continuaram coincidindo com colheitas e fartura, com comidas consumidas entre festas, cantos e danças. Os africanos entraram com a culinária, as comidas de milho com coco. A mandioca foi herança índia. Surgiram a canjica, a pamonha, o pé-de-moleque. Acrescentaram-se as batidas da percussão às ingênuas músicas vindas do Reino. Foram surgindo as músicas diferentes, os ritmos nordestinos que hoje em dia têm o denominador comum de Forró. As danças, além de sofrerem a influência africana, tiveram uma participação especial e inesperada. A quadrilha francesa que as sinhazinhas dançavam na casa-grande, passou a ser dançada com os ritmos da senzala. Assim em avant tous, em arrière, balancez e tournez, popularizaram os nomes (alavantu etc) e passaram a ser dançados ao som de ritmos e instrumentos estranhos à corte francesa, onde teve seu berço.
Assim, é o Nordeste que dá o tom às festas juninas, transformando o País num grande "arraial matuto". Aqui foi o cadinho cultural, onde se formou a identidade brasileira, desde o tempo da colonização, fermentando os vários ingredientes para criar uma cultura marcante."